composição de noite em claro

Morei, por muitos anos, num residencial de prédios bem simples e de cores variadas numa cidade do interior de minas. Ali, construí laços e descobri na infância um sentimento de comunidade com as outras crianças que também moravam nos pequenos apartamentos com a vista meio duvidosa. Descer pra brincar era rotina de todos os meus dias, em que eu voltava pra casa com o pé sujo de terra e, às vezes, um cotovelo ralado. Em alguns desses dias, um menino da minha idade de cabelo escuro, curtinho, sorriso besta e jeito de falar meio diferente começou a chamar minha atenção nas reuniões da brincadeiras, quando na queimada as richas são criadas e o ódio e amor de criança se misturam sem a gente conseguir diferenciar. Eu sou muito saudosista e tremo escrevendo essas memórias. Eu tremia também quando ele aparecia, aliás, e a gente brigava demais. Até que eu comecei a ir pra escola e querer voltar logo pra casa pra poder ir pro parquinho e ter a chance de brigar de novo com aquele menino. Os dias dóceis duraram bastante, Um dia, ele começou a descer menos, até que chegou nos meus ouvidos pequenos a notícia de que uma doença tinha alcançado uma pessoa querida pra mim - era a leucemia dando as caras pra uma criança de menos de 12 anos. Não lembro o quão rápido aconteceu, mas nunca mais eu pude ouvir a voz dele de novo.
Essa perspectiva do nunca começou a me atormentar muito por volta desses tempos. Ian nunca foi pro ensino médio. Ele não foi pra faculdade. Ele não cresceu. A vida parou aí. A morte, com todas as suas interrupções traiçoeiras, me atormenta desde então porque fica díficil imaginar a possibilidade cortada pela raíz, o potencial. Nesses tempos em que ela caminha na rua da porta da minha casa, o medo se multiplica exponencialmente, e a incerteza vem. De madrugada. Acordando. Não podendo abraçar. Eu sinto falta. de muita muita coisa. Sentir falta é humano, né? E o medo é instintivo. Vou me esconder debaixo da coberta, enquanto isso tudo não passa.
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