Ninguém morre de amor
Quando completei vinte e um anos de idade a minha irmã me presenteou com um cacto. Vaso azul, uma frase esperançosa do meu autor favorito pintada a mão. Recebi logo de manhã, exalava empolgação. Nunca tive um cacto, na verdade nunca tive nenhuma dessas "plantas de estimação", então a ideia me animava. Era nove de junho de dois mil e vinte o dia em que ganhei um cacto de presente de aniversário, também foi a manhã de nove de junho de dois mil e vinte a que passei inteira retirando espinhos da minha pele pois distraído segurei de mão cheia o cacto. E nada acontece.
Não houve uma grande revelação, uma epifania sequer, não aprendi nada, não foi bonito. O complexo messiânico que me habita como ser humano e que não suporta o peso da simplicidade não foi sanado. Minha mão continuou cheia de espinhos e só. Todo mundo se fura, todo mundo se corta sem querer, todo mundo come, caga, fode, se apaixona, sangra sozinho e ninguém morre de amor. Nada é divino, nada é maravilhoso.
Se fecho os olhos ainda consigo me lembrar dessa cena - estou chorando no corrimão da universidade quando minha professora me aborda. Coração partido, término, mas era mais que isso, a gente morava junto, explico para ela, que me olha fundo e diz - ninguém morre de amor. Foi como subitamente ter a mão cheia de espinhos, nenhum consolo sequer. A verdade é insensível às vezes, eu continuo vivo, o meu antigo relacionamento já nem me dói mais. Ninguém morre de amor.
E de paixão? Se pudesse agora perguntaria a ela, porque são 23h30 e acho que estou morrendo.
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