Insônia III

(escrito ao som de Lua - A Outra Banda da Lua) 

Perdido no mundo de Morfeu eu cavalgava. Tenho medo do meu olfato, ele sempre me trai quando transforma todo cheiro em nostalgia. Nos sonhos meu nariz não funciona, mas perdi mesmo assim - me lembrei do campo solto das cavalgadas da infância, meus primos, meus avós e de repente eu estava consciente. Dentre alguns flashs sonhei com a vacina também, confesso que até havia esquecido sobre a pandemia e isso diz muito sobre minha vida agora.

Insone mais uma vez. Acordado eu sou fogo, sou chama que queima sem fim. Dormir é uma batalha, voltar a dormir é uma guerra que nunca venço, não volto nem fodendo, são quatro da manhã.

Eu tenho vinte e um anos e queimo mais que nunca e nunca pensei que ainda estaria aceso aos vinte e um. Eu tinha doze quando aprendi a amar as mulheres, o mais engraçado é que na noite em que minha mão miúda se fechou num seio também miúdo pela primeira vez, eu havia cavalgado com meu pai até escurecer. Três anos depois aprendi a amar os homens também, aquilo que é feroz, o desejo que te mata se você não matar, pelo com pelo e músculo com músculo. Nessa época, no entanto, não existiam mais cavalos entre pai e filho.

Eu tenho vinte e um anos e descobri que sou vento também, só tirar o chinelo e voo, alto e até onde der. Não amo homens nem mulheres, amo pessoas que de repente possam ser homens ou mulheres. Como o vento que a tudo toca. Talvez por isso eu não goste de prender ninguém. Meu desapego dói em minha mãe e por isso dói em mim também. Eu amo minha família, só não sei amá-los do jeito que esperam. Eu não sei nem o que vou comer amanhã, todo dia minha pele se rasga e até o meu rosto muda. A chama cresce e tenho medo. Medo e tesão. Viver é foda - no mais ambíguo da palavra. Viver é tudo, morrer é nada.

Todos os meus amigos tem marcas, feridas de estresse. Eu tenho ânsia, olho pro céu e grito - vem e explode. Me fode, que eu até gosto. Estou tão confuso, tudo é tão novo que eu nem sei mais. Não me sei mais. Às vezes só quero dormir, sonhar sem perceber que estou sonhando. Mas mesmo assim olho e grito - me fode! Me fode que eu tô no auge dessa coisa. Me fode até não poder mais, até que venha o tempo e essa chama quase suma e eu nem me lembre mais do tônus e das explosões. Eu tô aqui. Agora. 

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