João e o Misto Quente

Começou a numerar mentalmente: Um, seus vinte-e-poucos-anos de incursões falidas e largadas pela metade, que pulsam fracasso no seu peito eufórico. Dois, seu próprio peito eufórico. Três, seu metro e sessenta e oito. E também as tortas e miúdas coisas boas que agrupadas formam esse quatro. João trocaria tudo por lutar contra gigantes e roubar ovos de ouro de galinhas mágicas, por viver do seu puro instinto animal, voltar às cavernas, caça e pesca, apocalipses zumbi - mas tudo o que tinha era um misto quente nas mãos, pingando em sua barriga descansada algum líquido de reações químicas que não saberia dizer quais.  

Fixava-o com certa inveja, da maravilha que seria, queijo e presunto por dentro, não esse recheio de bicho desenfreado que não para quieto e periga rasgar esse corpo minúsculo a todo momento, desse que um dia já foi João e hoje é qualquer outra coisa - ficou mesmo no passado, que acessa com as migalhas de nostalgia que encontra por aí, cheirando sacos de pão e sentindo nos ossos o frio tão familiar do mês de Julho, sendo mais lembrança que gente viva. 

Não haviam luzes, João fora tirado cedo demais, provara os gostos. Portanto, sabia. E saber, nos seus vinte e poucos - nascente soterrada - também significava nada poder fazer. Sabia e não conseguiria mais fingir surpresas, acusar semelhanças e forjar romances. O tempo era um, ele outro, mas ainda assim gente e gente assim era persistente como o queijo que luta para não se desgrudar do pão. 

Despido ali naquele quarto, corpo minúsculo, solidões infladas e atmosféricas, abandonos latentes, João era apenas o que podia ser visto e tudo o que João era caberia em um quadro, que pintava mentalmente assim: a cama torta, sobre ela o corpo nu, um misto quente pingando em sua barriga algum líquido de reações químicas que não saberia dizer quais, uma epifania ou duas. 

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