Do reflexo na memória de Andrei Tarkoski

Assim Não Esqueço: O Espelho (Andrei Tarkovsky, 1975)

A linguagem parte de uma estrutura acessada desde o nascimento até a morte, expressada pela fala e pelas diversas formas que compõe as artes. O significado da linguagem remete a cada um de nós signos comuns a uma determinada sociedade. Andrei Tarkovski, em O Espelho, consegue dar significado cinematográfico pras memórias e pra alguns significados dentro delas, pra além de palavras. 
O Espelho acompanha um homem enfermo que volta à infância pelo acesso a suas memórias e, como não é possível separar o artista da arte, Tarkovski nos mostra sensações da própria infancia por personagens de outros nomes. Essa viagem linguística multi-sensorial que é o filme impacta no espectador a partir do momento em que alguns signos comuns aos seres humanos que sonham (todos) aparecem: alguns vazios representados por cenários abertos; algumas claustrofobias e alguns acessos impossíveis por mais que se force ao máximo a própria consciencia pra lembrar. Esse mesmo ser humano, quando deixa de sonhar, sente saudades do regresso a infancia, período em que todas as possibilidades são possíveis... e não é por acaso que esse regresso profundo ocorra em delírio febril do protagonista. 
De uma sensibilidade e de uma genialidade imensuravéis, Tarkosvki traz reflexos de sensações e sentimentos caros à humanidade, pelo regresso das próprias memórias. A presença dos espelhos ao longo da trama e dos reflexos dos personagens ao encararem si mesmos deixa claro o tamanho do ato de coragem de voltar, de tacar fogo - de existir. 

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