A Obscena Senhora D. - Hilda Hilst

por Maria
Revendo Hilda Hilst - seLecT
Iniciando o desafio de Volta ao Mundo em 80 livros, projeto iniciado num cenário pandêmico em que o isolamento social é crucial para a sobrevivencia da população, escolhi como primeira viagem sem sair de casa um livro do meu próprio país. Quando partimos da consciencia de si, de nossa própria terra, e de uma forma crítica, coneguimos base para avaliarmos e nos aprofundarmos, posteriormente, em leituras de realidades externas, para fins de desenvolvimento empático e de crescimento como humanidade.
Minha escolha inicial seria um livro de poesias do Ferreira Gullar, mas, indecisa como sou, perdi tempo demais ao avaliar qual, das suas muitas produções, seria meu pontapé inicial. Por fim (ou por começo), acabei decidindo pela Hilda Hilst, autora com a qual me familiarizava apenas o Caderno Rosa de Lori Lamby. Hilda, que transitou entre dramaturgia, ficção, e poesia, é e será contemporânea por muito tempo, enquanto persistirem questões humanas que abarcam o erotismo, o tempo, a questão existencial e muitos outros temas que nos é familiar por vivência.
Utilizando-se da obscenidade para tratar o existencial e social,  a obscena senhora D. possui o D de Desamparo, de abandono na compreensão dos porquês, D de desaparecimento, da coisa mais crua e que some sem a gente ver: D de Tempo. A perda de um ente querido, Ehud, inicia nossa viagem pelo mundo de Hellé, que questiona o significado de estar morto - antes de nasce Ehud, era nada, e depois de partir, continua não sendo nada?  Atordoada com essa ausencia, desbruçamos sobre a mente dessa senhora, jogada por si em escadas, jogados também os dialógos, uma vizinha tenta auxilia-la e ela mostra suas vergonhas, por que? Porca, cadela, do demonio...  Hillé, que cresceu procurando respostas nos olhos dos bichos
- que foi Hillé? 
- o olho dos bichos, mãe 
- que é que tem o olho dos bichos? 
- o olho dos bichos é uma pergunta morta.

 também tentou respostas nos olhos dos homens.

para sempre, eu te dizia: tu tens vinte agora, eu vinte e cinco, pensa tudo isso não vai voltar, não terás mais vinte nem eu vinte e cinco, teremos cinquenta cinquenta e cinco, e vais ficar triste de teres perdido o tempo com perguntas, pensa como serás aos sessenta. eu estarei morto. 
- por que? 

D de Derrelição: as duas primeiras sílabas lembram derrota. E lição é sempre muito chato.
substantivo feminino
  1. 1.
    estado de abandono, desamparo, repúdio.
  2. 2abandono desobediente ou transgressivo (de preceitos morais).



A vida foi isso de sentir o corpo, contorno, vísceras, respirar, ver, mas nunca compreender. Tem sido isso.

Você vai achar, Hillé, seja o que for que você procura.

Para poder morrer 
Guardo insultos e agulhas
 Entre as sedas do luto. 

Para poder morrer 
Desarmo as armadilhas 
Me estendo entre as paredes 
Derruídas.

 Para poder morrer 
Visto as cambraias
 E apascento os olhos
 Para novas vidas. 

Para poder morrer apetecida
 Me cubro de promessas
 Da memória. 

Porque assim é preciso
 Para que tu vivas.


o livro pode ser encontrado gratuitamente aqui

Comentários

  1. Descrição poética e muito bem feita. Por favor continue o projeto.

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  2. "antes de nasce Ehud, era nada, e depois de partir, continua não sendo nada?", esse trecho me acertou em cheio
    l

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